A gente passa a vida correndo. Alguém não? Pega a Dom Pedro, cruza o anel viário, se aperta no trânsito para chegar a Campinas ou a São Paulo, sempre com a cabeça no próximo compromisso, na próxima conta, no próximo projeto. E, de repente, no meio de uma manhã fria de terça-feira, o trânsito trava perto do portal de Valinhos. Você olha para os lados, e enxerga o cenário urbano que aparece, e um estalo silencioso acontece no peito: Para que tudo isso, afinal? O que eu estou fazendo com o meu tempo?
O que você está fazendo do seu tempo? Essa pergunta não é frescura de quem não tem o que fazer. Ela é uma das mais importantes, mas é preciso sinceridade para enfrentá-la e chegar a uma resposta, pois a resposta pode nos mostrar algo que nos leva ao risco da angústia.
A vida tem um um manual de instruções ou um folheto explicativo? Não. Ela não tem um sentido embutido que a gente só precisa achar, como quem procura uma chave perdida no fundo da bolsa. E aceitar isso dá um medo danado. A gente foi ensinado a buscar garantias. A gente quer ter certezas. Queremos um roteiro pronto: estude, trabalhe, compre uma casa, tenha filhos, acumule coisas e, no final, sinta-se realizado. Por fim, a gente morre. Mas essa receita é uma mentira confortável. Você pode ticar todas essas caixas e, ainda assim, deitar a cabeça no travesseiro à noite e sentir um vazio que parece não ter fim.
O filósofo francês Jean-Paul Sartre dizia algo que é um soco no estômago: nós estamos "condenados a ser livres". Isso significa que não existe um destino traçado, uma força cósmica ou um plano exato que justifique a nossa existência.
Nós somos jogados aqui, neste chão, e a responsabilidade de dar um rumo para essa bagunça é inteiramente nossa. É um peso brutal.
É muito mais fácil entregar as rédeas para o que a sociedade espera de nós, virar um robô que cumpre tarefas e fingir que estamos vivendo. Mas viver no piloto automático não é viver; é apenas durar.
Ao mesmo tempo que a gente quer desesperadamente que a vida tenha um propósito gigante, quase sagrado, a gente só encontra alguma paz quando aprende a valorizar o que é miúdo, o que é frágil e o que vai acabar.
Pense bem. Se a gente fosse eterno, se tudo durasse para sempre, nada teria valor real. O que faz um encontro com os amigos em um sábado de sol no Parque da Cidade ser especial é justamente o fato de que aquele momento é único. Ele vai passar. Aquelas pessoas vão envelhecer, os caminhos vão mudar, a tarde vai cair. A beleza está na finitude.
A gente só ama o que pode perder.
Ainda assim, a gente briga contra isso. Queremos construir monumentos ao nosso próprio ego, queremos que as nossas certezas sejam absolutas. Bobagem. A vida de verdade naquelas rachaduras que enxergamos nas certezas. É no dia em que o plano dá errado e a gente descobre uma força que nem sabia que tinha. É no momento em que a gente aceita que não tem o controle de nada — nem do clima, nem da economia, nem do coração de quem a gente ama — e, em vez de se desesperar, respira fundo e segue em frente.
Viver com sentido não é descobrir um grande segredo místico no topo de uma montanha. É decidir, todo santo dia, o que merece a nossa atenção e o que é apenas ruído. É escolher não se anestesiar diante da dor do outro, mas também não se deixar esmagar pelas cobranças que não são nossas.
Talvez o sentido de habitar este pedaço de chão que a gente chama de lar não esteja nas grandes respostas que a gente tanto busca, mas na coragem de continuar caminhando com as perguntas no bolso. No fim das contas, a vida não é um enigma para ser decifrado, mas uma realidade para ser experimentada, com toda a sua beleza caótica, seus erros bobos e sua teimosa insistência em continuar.
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