Você usa algum recurso de inteligência artificial (IA) no seu dia a dia? Eu uso. Confesso que ela facilitou meu trabalho de diferentes maneiras; mas, antes disso, quero lembrar alguns elementos da minha história.
Desde que comecei a lecionar (lá em 2002), tive acesso a muitas tecnologias - peguei até mesmo o fim da era do mimeógrafo. Usei transparências no retroprojetor: eu andava cheio de canetinhas coloridas, pois eu achava um enorme avanço ir marcando e escrevendo no material projetado. Até que chegou o tempo da projeção diretamente do computador - isso é que era maravilhoso (mas era apenas um projetor na sala de vídeo, sendo necessário reservar). Parecia que a aula não poderia ser melhorada; até que participei de uma aula na Unicamp, na qual a professora acessava a internet e projetava tudo ali, na hora. Praticamente, eu estava me sentindo em um parquinho de diversões (embora, no primeiro momento, eu era apenas espectador, já que a tecnologia não chega ao mesmo tempo a todos os lugares).
Aos poucos, fui acessando mais recursos tecnológicos e digitais. Lá em 2006 comecei a lecionar no Ensino Superior a distância. São mais de 20 anos acompanhando o desenvolvimento de recursos que têm modificado a educação - e tenho me motivado sempre, como aficcionado pela tecnologia digital e tudo o que ela possibilita. Eu fui conseguindo fazer com que minha criatividade se transformasse em uma prática, pois sempre conhecia recursos novos.
Quantas habilidades desenvolvi até hoje, com o uso dos diferentes recursos disponíveis? E quantas habilidades já bem desenvolvidas fui deixando para trás, para que outras mais refinadas ganhassem espaço?
Até que me vi diante de uma realidade marcada pela IA. Confesso que, de início, fiquei meio “de orelha em pé”, sobre quanto de confiança era possível depositar no que a nova tecnologia me entregava. Mas ela acabou entregando muito mais do que eu imaginava. Mas, é claro: enquanto eu sou só um indivíduo, com uma experiência particular de pensamento e uma capacidade limitada, a tecnologia vem com milênios de conteúdos - ideias desenvolvidas, filtradas e lapidadas ao longo de milênios de estudo. A IA facilitou meu fazer.
Facilitou, mas, no mesmo caminho, fez com que eu não precisasse mais usar, por exemplo, tanto da minha criatividade. Tenho deixado de fazer coisas “secundárias” para focar nas que sempre considerei “mais importantes e refinadas”. Acontece que, mesmo as tarefas mais mecânicas - por exemplo, de elaborar um esquema de um texto lido ou construir manualmente os slides de uma aula - contribuem para o funcionamento da minha mente. Se eu, simplesmente, deixar de fazer algumas atividades, não significará que usarei o mesmo tempo e “espaço” para aquilo que seja mais elevado. Minha mente computa sistemicamente, e as tarefas secundárias a provocavam a sair de si mesma.
Tenho receio de parar de provocar minha criatividade, confiando nos resultados que obtenho com a tecnologia. Não consigo acreditar de maneira simplista apenas nos ganhos…
Nunca gostei de deixar alguma pessoa mexer nos meus textos; menos ainda quero transferir a escrita deles para a IA. Lapidar as ideias no papel é uma habilidade importante que exige de mim atenção, conhecimento da língua e construção lógica. Se eu, apenas, passar a atuar como avaliador do que a IA escreve, deixarei definhar uma capacidade que levou muito tempo para se construir em mim.
Enfim, vamos ver para onde caminhamos nesse texto da história que ainda não tem ponto final.
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Imagem gerada por IA, a partir do do próprio texto.