De que lado você está?
Setembro de 2026 e, mais uma vez, o Brasil passa por uma crise de confiança entre instituições. Bem temos acompanhado as investigações do "Caso Master" e, aquilo que envolvia diretamente apenas políticos eleitos e candidatos, de repente, toca personagens do alto escalão da justiça brasileira, no Supremo Tribunal Federal, envolvendo ministros, Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Do lado de cá, estamos nós, não à espera de um milagre, mas de esclarecimentos.
E qual é nossa primeira tentação? É escolher imediatamente um lado: “sou contra o STF” ou “defendo o STF”. E é aí que a filosofia pode nos ajudar. Pensar filosoficamente não significa ficar em cima do muro, relativizar tudo ou fingir que não existem conflitos. Significa perguntar como devemos organizar nosso julgamento.
O que é o poder? O que é a justiça? O que é a política?
Como construir uma sociedade justa?
O que caracteriza uma instituição legítima?
Um juiz pode exercer poder político sem ultrapassar seus limites?
Como controlar quem controla os outros?
Tais questões estão na filosofia desde séculos antes de Cristo. Ou seja, há pensadoras e pensadores que têm se dedicado a pensar sobre questões que muita gente acha que são simples e já estão resolvidas.
A filosofia está em moda no momento (já há alguns anos), principalmente por conta de um ou outro professor que encontrou uma porta para que o capitalismo capitalizasse o pensar. E vendem autoajuda - coisa que a filosofia não é. Mas é preciso resgatar a filosofia naquilo que lhe é mais próprio e perguntar "O que, realmente, significa pensar? Quando e como pensamos?"
Vejamos que:
Platão já nos alertava para o problema do poder;
Aristóteles pensava sobre as formas de governo e os limites da vida política;
Maquiavel nos ensinou a olhar para o poder sem ingenuidade;
Locke e Montesquieu discutiram a necessidade de limitar o poder por meio das próprias instituições;
Hannah Arendt mostrou como a política depende de um mundo comum no qual possamos agir e discutir juntos.
As questões filosóficas permanecem sempre atuais, pois não conseguimos alcançar a verdade última. Defender a democracia não significa defender qualquer decisão tomada em nome dela. Uma posição verdadeiramente democrática precisa ser capaz de fazer as duas coisas: defender as instituições contra aqueles que querem destruí-las e, ao mesmo tempo, exigir que essas instituições respeitem seus próprios limites.
Talvez esta seja uma das maiores contribuições da filosofia para o nosso momento: nos ensinar a desconfiar das respostas fáceis.
Quando a política se transforma em torcida, deixamos de perguntar se algo é justo e passamos a perguntar apenas se beneficia “o nosso lado”. Quando isso acontece, qualquer abuso pode ser perdoado, desde que cometido por quem consideramos aliado. Uma democracia madura exige algo mais difícil: o mesmo critério para todos. Se queremos limitar o poder de presidentes, parlamentares, juízes, empresários ou partidos, precisamos aceitar que nenhum deles esteja acima da crítica.
Filosofar é parar com a indignação superficial e perguntar: O que eu estou defendendo? E o defenderia também se o poder estivesse nas mãos de quem eu não gosto? É uma pergunta incômoda. E justamente por isso, talvez seja uma das perguntas mais democráticas que podemos fazer hoje.
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Imagem gerada por IA, a partir do do próprio texto.