(Texto de Eduardo Prado de Mendonça.)
Existe uma impressão generalizada de que o filósofo se compraz no cultivo de um modo de viver e de pensar exóticos, que é razão para que o considere vivendo um tipo de vida incomum. Por isso julgamos sempre que há uma grande distância entre o modo de viver e de pensar dos filósofos e o viver e o pensar dos homens em geral. Na verdade, porém, os filósofos convivem conosco.
Assim como a atmosfera em que vivemos está povoada de seres invisíveis, que aspiramos em nossa respiração sem o saber (p.ex.: cada cm3 de ar tem milhões de moléculas de ar), a atmosfera de nossa vida de pensamentos está povoada de idéias de filósofos, que fazemos circular, sem ter a menor consciência disto.
No mais das vezes, o que julgamos ser manifestação espontânea do nosso próprio pensamento, ou expressão do senso comum, exprime na verdade resíduos de idéias defendidas por filósofos, idéias que se tornaram populares, e se desligaram do seu contexto e de suas origens.
Propomo-nos, assim, chamar a atenção para o que efetivamente acontece: os filósofos, que julgamos muito distantes de nós, vivem conosco, ao nosso lado, e até em nós mesmos, presentes em nossos próprios pensamentos. Nós os conduzimos conosco, sem o saber.
Quantos brasileiros ignoram que o lema “ordem e progresso” inscrito em nossa bandeira foi tomado da filosofia positivista de Augusto Comte (1798-1857)! Augusto Comte dizia: o amor por base, pregando um sentimento de fraternidade e de filantropia; a ordem por meio, pois sem ordem nada pode ser construído de estável; o progresso por fim, porque para ele, que não aceitava o sobrenatural e o metafísico, tudo se reduzia a uma evolução social e política da humanidade, cujo termo só poderia ser indicado vagamente no conceito de progresso, entendido simplesmente como superação. (...)
Quando encontramos alguém que julga que a vida deva consistir no gozo dos prazeres sensíveis, aí está, sem o saber, um epicurista. Epicuro (341-270), na verdade, a princípio, julgou que o bem do homem estava no gozo dos prazeres sensíveis. Mas depois, refletindo melhor, verificou que o gozo sensível tem sempre um limite, e, o que é pior, no mais das vezes produz reações opostas, como a fadiga, o enjôo, o tédio. Daí ter distinguido entre os prazeres móveis e os prazeres estáveis, para enfim concluir que apenas o saber poderia representar uma satisfação estável. A doutrina segundo a qual o homem deve procurar a felicidade no prazer é também chamada de hedonismo. Então, a pessoa que só age em vista da busca de um prazer é chamada de hedonista.
Quando encontramos alguém para quem não existe a verdade e que duvida de tudo, aí encontramos um cético. Mas é preciso saber que o ceticismo absoluto é uma contradição em si mesmo: dizer “não existe verdade”, ou é pretender que isto seja verdade, ou nega o que é afirmado; ou se não pretende que a afirmação seja verdadeira, então se trata de uma afirmação inconseqüente.
Quando encontramos alguém que se acha dono absoluto da verdade, aí encontramos um dogmático. Este é radicalmente oposto ao cético. Para o dogmático, a sua posse da verdade é total e não admite contestação. Seus arrazoados são tão inflexíveis que mesmo qualquer diálogo se torna impossível.
Por outro lado, se encontramos alguém que afirma que cada um tem uma verdade para si mesmo, estamos diante de um relativista. Protágoras (485-411) dizia: “O homem é a medida de todas as coisas”, ou seja, o que serviu de título a uma peça teatral de Shakespeare: “Assim é se lhe parece”. Deste relativismo, encarrega-se a própria sociedade, que exige para uma vida dos homens em comum existência de concepções em torno das quais possam os homens entender-se. (...)
Há os que negam a existência de uma vida espiritual, e tudo pretendem entender como expressão da matéria. Estes estão ligados ao materialismo. É a posição de Marx (1818-1883). Mas o materialismo enfrenta os mais graves problemas. O grande sustentáculo do materialismo foi a ciência. Mas a ciência, quando procura conhecer pela força da razão, sem apelar a Deus nas suas explicações, sabe que isto representa um método de trabalho, e não uma solução do problema da existência de Deus e da sobrevivência espiritual da alma humana, pois estes problemas não são abordados pela ciência experimental. A ciência pode dizer que não os trata, mas não pode apresentar para eles uma solução, que não lhe cabe. (...)
Poderíamos alargar por muito tempo ainda a série de exemplos. Basta-nos, contudo, mostrar que os homens carregam consigo posições filosóficas, assumidas sem saber.
Os filósofos não se afastam da vida. Eles convivem conosco, marcando a vida humana com sua presença constante. Vivemos diante desta presença dos filósofos, pois as suas idéias se manifestam a todo instante.
Os homens que julgam não afastar-se da vida, estes, por não se ocuparem da Filosofia, estes sim podem estar afastados da realidade, pois deixam, por deficiência de concepção, de viver como poderiam e deveriam viver.
MENDONÇA, Eduardo Prado de. O mundo precisa de filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1968.
Imagem gerada por IA, a partir do do próprio texto.